Esse texto é tudo, menos “incrível”…

A primeira coisa que preciso deixar claro é: não se ofenda! Não leve para o lado pessoal.

A razão que me faz escrever aqui é um convite a pensarmos antes de falar. Sim! Simplesmente isso: pensar antes de falar. Mas, por obséquio, não pense que estou insinuando que quem faz diferente do que vou problematizar aqui, não pensa antes de dizer algo.

O fato é que um vício de linguagem, digamos assim, tem chamado deveras a minha atenção. (Linguistas que me perdoem se uso a nomenclatura equivocada). E, se chama a minha atenção, possivelmente chama a de outras pessoas. Se não, então o faço aqui, agora: o uso recorrente, insistente até, da palavra “incrível”.

Veja bem, preciso frisar mais uma vez (e sempre), para que não haja má interpretação da minha abordagem: não tenho nada contra o adjetivo, muito menos nada contra o predicativo do sujeito (no caso, do sujeito que adjetiva dessa forma). Exemplos: “Ela está incrível.” “O post é incrível.” “Maria ficou incrível!” “Eles são incríveis!”

Talvez, esses exemplos já cumpram a missão primeira desse texto que é observar a quantidade de vezes que, ou nós falamos ou nós ouvimos o termo “incrível”. Posso ser ainda mais convincente (e eficiente) com um teste: proponho a você que eleja um dia qualquer da sua semana e, dentro da sua rotina pessoal mesmo (nada de excepcional), comece a contabilizar as vezes que ouve essa palavra até o anoitecer. Sério! Não custa nada. Vá anotando. Quando você conversar com alguém; quando ler suas postagens rotineiras das redes sociais, ou mesmo assistindo vídeos no youtube.

Por experiência própria, ouvindo alguns vídeos que minha filha de 4 anos assiste no youtube, e até em desenhos exibidos nas famosas plataformas de streaming, houve vezes que, em um intervalo de 1 minuto (juro!), as personagens falaram “incrível” umas 3 vezes!

Daí alguém pode indagar: “Sim, e qual o problema de se falar ‘incrível’ algumas repetidas vezes?”. Bem, não há problema nenhum. Como disse anteriormente, não estou julgando ninguém, não se trata de um demérito o uso dessa palavra. Agora, principalmente depois do teste que fizemos, se você já consegue concordar que realmente é um adjetivo muito utilizado em toda e qualquer situação, é possível que possamos ir mais adiante nessa reflexão.

Fazendo um paralelo com o famoso meme da Bela Gil do “Você pode substituir o X pelo Y, por exemplo, podemos pensar nos sinônimos desse adjetivo, e até mesmo no seu significado! Sim, porque “incrível”, ao pé da letra, é algo que não se pode crer, e muitas vezes quando dizemos que uma coisa ou pessoa é incrível, literalmente estamos dizendo que não se pode crer nela, quando na verdade queríamos afirmar que era “fantástico”, “extraordinário”, etc.

Então, você pode substituir o “incrível” por “sensacional”, por exemplo. Ou ainda por “admirável”, “espetacular”, “estupendo”, “maravilhoso”. E quando quiser se referir a uma coisa que verdadeiramente não dá para acreditar, você pode usar “inacreditável”, “inimaginável”, “improvável”, “inconcebível”. Por fim, se quiser falar sobre o que é fora do comum, existem esses outros termos: “surpreendente”, “singular”, “original”… Todos sinônimos do nosso querido “incrível”. E tem mais nesse link: https://www.sinonimos.com.br/incrivel/

E finalmente, depois de todo esse esforço (contem ironia), voltamos a um dos pontos iniciais desse texto: pensar antes de falar. E por mais que questionem “Poxa, tenho que pensar bem mastigadinho assim antes de falar até com amigos? Ou em um storie rápido de rede social?”. Posso responder que é uma opção pessoal. No entanto, no processo de comunicação, até entre os nossos, ou principalmente entre eles, temos que ter certa segurança das palavras que usamos. É por meio da palavra que nos fazemos entender, ou não. Se comumente usamos um termo e, em certa situação queremos transmitir uma mensagem diferente, inédita, não vai ser usando essa mesma expressão que vamos conseguir atingir esse objetivo da diferenciação, certo? Sem falar na questão do vício de linguagem. E eu sei que existem outros vícios mais prejudiciais, mas você há de convir que “estar viciado” no que quer que seja, não é tão salutar assim.

Não é sobre falar “bonito” ou parecer superior e mais culto que os demais. É sobre nomear corretamente aquilo a que nos referimos. Embora não neguemos que, para além desse fator mais funcional, existe mesmo certo fascínio na eloquência de algumas pessoas.

Sabe a sensação de encantamento quando se está diante de uma mesa farta e variada de alimentos? Algo parecido acontece quando nos deparamos com a riqueza de vocabulário de alguém. E não vai ser por falta de “incrível” que há de se identificar essa diversidade de palavras proferidas, mas sim pelo uso de tantas outras igualmente.

Entenda, não é “ranço” pelo “incrível” de seu ninguém… Admito até o “ranço” pelo próprio“ranço”, pelo “top” e suas variantes, mas isso é assunto para outra ocasião.

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Designer, mestra em história social da cultura e (ama) dora da escrita, arriscando rimas, prosas e poesias.

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